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Prefácio

 

Para aguçar nossas percepções e sensibilizar nossa existência o Coletivo Letras Negras, traz uma obra escrita a muitas mãos e dialogada a partir de toda articulação do poeta e educador Ivan Reis. A cada texto-poema presente aqui, temos a oportunidade de mergulhar em experiências que mostram o que é ser negro e negra no Brasil.

Com a sagacidade poética os autores e autoras dessa edição, revelam o retrato da realidade vivida, experenciada e sentida pela população negra no Brasil. Quem dera se essa alusão fosse somente poética e fictícia. Nesses escritos, encontra-se dores e alegrias, pensamentos e agruras, resistência e existência de uma população negra que celebra sua ancestralidade africana a cada ato de combate ao racismo, de preservação de sua cultura ou simplesmente por força de sua existência. Não é fácil ser negro e negra num país marcado pelo racismo, cuja herança escravocrata desumaniza seus corpos e demoniza suas culturas. No entanto, apesar de toda essa necropolítica e epistemicídio que encara e vitimiza a população negra, essa se faz e se refaz por meio dos valores de suas culturas, cujas raízes se banham nas águas fartas de um oceano infinito que é a mãe África. África daqui, África de lá, essa se reinventa e traz nesses corpos as letras impressas e escritas que traduzem nos textos a seguir a racionalidade pensada e sentida da experiência de ser negro e ser negra no Brasil.

Nossa voz ecoa!

Ela é presente!

Essa voz negra ecoa em cada canto desse país!

Por toda parte e a todo tempo há um negro e uma negra que vive em luta, mas também que vive em festa a partir da contemplação e da celebração do que há de mais afro em nós: nossa corporeidade e ancestralidade; são essas que nos garantem a capacidade de viver e sobreviver, de lutar e existir! Axé!

Mergulhe nessa obra! Aguce seus sentidos e contemple essa escrevivência através das palavras que seguem em textos firmes e sensíveis da realidade e da poesia que nos atravessa e nos constitui. Boa leitura! Motumbá! Mukuiu NZambi (ou seja, que Deus te abençoe)!


 

TATIANE SOUZA

 

Congadeira, Professora, Cientista e Escritora


 

 

A Poesia e sua concepção em Letras Negras

 

A poesia na obra do Coletivo Letras Negras, parte de um sonho, acontece numa concepção de realidade e torna-se real na medida em que é parte da autonomia, da estética de um grupo de escritores, que faz da atualidade a própria lei da existência e registra isto em forma de arte, sendo a mesma a própria medida.

Ao ter esses poemas é ter vidas, escritas, traduzidas, sentimentos e olhares afrodescendentes da diáspora africana, como livro, como obra de arte. São princípios, meios e fins de uma construção identitária. São as experiencias de um povo que fala, que canta, que samba, que faz cultos de terreiros e que também escreve e bem.

Nesta obra encontramos poemas que falam das mulheres, de sua beleza estética, da sua feminilidade, da sua luta quotidiana como dona de casa e cabeça pensante do lar. Mulheres que educam, ensinam seus filhos além de lutar sociologicamente por uma vida mais aprazível, por um estudo mais apurado, por uma formação profissional, intelectual e social. Além de lutar contra o preconceito, contra a discriminação racista e sexista, coisas que a sociedade brasileira cristalizou como parte de uma cultura ideológica, embora sabemos que isto é algo falso. E que pela poesia a hipócrita máscara cai e revela um Brasil que se faz portador da doença social do racismo, do sexismo, da cultura do estupro, preso na conjuntura que ora apresenta-se.

Porem neste livro encontramos também a reafirmação de nossas raízes, e os costumes que vieram de nossos antepassados provindos do além mar. Fato ocorrido a partir da vinda dos navios de seres humanos da África para o continente da América. E no navio em que se apresentava um espaço de violência, desumano e de péssima higiene. Juntos com os corpos trazidos par o trabalho, vieram também a história de vida, a filosofia, as ideias políticas, a religiosidade, as orações, as reflexões e os sonhos desfeitos e o banzo que tantos corpos ceifaram e permitiram alimentar tubarões. É triste mas essa tristeza vem em poesias.

E nisto há seres humanos refletindo e clamando por uma educação em que haja um processo educacional libertário emancipador, longe desta grande estupidez que é o ensino voltado para o trabalho braçal e mal remunerado até porque o trabalho precisa mudar, e esse ser humano, precisa ser respeitado na sua humanidade, no seu caráter social, cultural e educacionalmente. E pra isto a escola precisa ser libertaria, precisa ser conteudista, precisa ser contestadora, e emancipadora, precisa refletir- se criticamente sobre os caminhos políticos e econômicos traçado pela elite governamental. E esperamos que a cordialidade se aproxime do amor fraternal, da camaradagem de classe social e nisto neste livro há poemas com esse olhar com essa visão de mundo.

É preciso refletir sobre o tratamento que o Estado impõe ao ser humano afrodescendente e pobre. E este Estado que friso é em relação ao seu serviço de segurança, que se torna apenas uma insegurança para todos os pobres, trabalhadores da periferia. E nisto há poemas com essas reivindicações.

Há autores em que o contexto do processo cultural se expõe diferentes olhares sobre a mesma realidade, o que é perfeitamente compreensível por tratar-se de seres humanos residente na República Federativa do Brasil, uma país da pluralidade cultural e que deveria acima de tudo manter um respeito e um processo educacional e cultural de plena harmonia. Embora saibamos que isto não existe no país. E que os afros descendentes também são seres plurais e que não possuem uma uniformidade formativa e sim são frutos desta história, desta ideologia capitalista de exploração de um ser sobre o outro, de uma terrível desigualdade social. E sabemos que essa história nem sempre é contada assim, pois temos ideologicamente em nossas escolas o positivismo como imposição. Mas há poemas que tratam deste assunto.

Há poemas que nos remetem a solidão, a dor, ao silêncio do quarto. E ao grito deste silêncio.

E tudo estruturadamente num sentimento de carinho, na ternura por nossos antepassados, no respeito a ancestralidade, na leitura das tradições religiosa dos orixás, sejam de kètu, nagôs, Os de jêjes, os de angola ou de congo. Há dois poemas em que saúdam os orixás.

E abrem-se como o Padê-de Exu ou o Rito Baru islâmico. O que temos são poesias. São artes literárias em que florescem poemas como flores nas prosas.

Essa é um obra em que destacamos pelo ritual requintado da linguística, da teoria da arte, da história, e das ideologias, como parte da teorias das formações do inconsciente. E isto é o primeiro rebento do Coletivo Letras Negras, e que venham fazer parte do cenário artístico literário do mundo.

 

Manoel Messias Pereira

 

Professor de história e poeta participante